Governo do Distrito Federal
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16/10/20 às 9h40 - Atualizado em 16/10/20 às 10h00

Pantanal: equipe do Brasília Ambiental narra tragédia enfrentada pela fauna local

Quem está de fora, mas acompanhando o noticiário sobre a tragédia no Pantanal, pode ter a impressão que os grandes desafios da fauna, daquela região, foram sobreviver à seca e aos incêndios florestais. A auditora fiscal, Karina Torres, que retornou recentemente do local, integrante da equipe do Instituto Brasília Ambiental, que contribuiu durante cerca de 19 dias no cuidado com os animais vitimados, relata, porém, que essas duas questões são só o começo do problema.

 

A equipe composta por três auditores fiscais, uma analista ambiental, e uma veterinária do Hospital Veterinário Público (HVEP), se deslocou para o Pantanal, região de Poconé (MT) no dia 23 de setembro. Suas liberações para esta missão atenderam a um pedido do Ibama. Eles se deslocaram em viaturas junto com quatro analistas do órgão ambiental federal.

 

Karina explica que foram de viatura, justamente, porque este tipo de carro, que tem tração 4×4, era uma das grandes necessidades local, porque as áreas queimadas são de difícil acesso.

 

Segundo a auditora, nos primeiros dois dias, que lá estiveram, ainda tinha muito fogo na região da estrada Transpantaneira, rodovia que liga a cidade de Poconé até a localidade de Porto Jofre, na beira do Rio Cuiabá, divisa dos estados Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Então, a principal ocupação da equipe foi a busca ativa de possíveis animais queimados. “Nosso trabalho foi, principalmente, o manejo de fauna, seja da forma direta ou indireta”, ressalta, esclarecendo que qualquer um dos dois tipos de manejo prescinde de autorização, que estava sendo dada pela Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso.

 

Foi na realização dessas ações que a equipe percebeu que muitos dos animais, que não morreram tendo como causa direta a maior seca do Pantanal dos últimos 20 anos – segundo os pantaneiros -, ou a maior queimada que já ocorreu na região, corriam o risco de perder suas vidas de outra forma. “Os animais que conseguiam sobreviver ao fogo perdiam a noção do seu território, da área de forrageamento (de busca e exploração de recursos alimentares), e fugindo do fogo, indo em busca de novas áreas, acabavam aumentando o trânsito nas estradas. Aí nos deparamos com outra tragédia que são os atropelamentos. Então, lá nós pegávamos animais queimados, outros debilitados e outros muitos que foram atropelados”, comenta Karina.

 

Mas não para por aí. A auditora conta que o cenário encontrado era desolador. Os animais sobreviventes se deparam com um ambiente todo queimado sem fonte de alimentação e de água. E uma possível fonte de água aos animais da região que são os corixos – pequenos rios normalmente perenes que aparecem durante a estiagem, onde os animais costumam buscar água nesta época – estavam lamacentos e/ou contaminados com as bactérias de carcaças de animais que conseguiram alcançá-los, mas morreram atolados na lama, provavelmente, devido ao cansaço.

 

Segundo Karina as equipes técnicas avaliam esses corixos para decidir o que seria melhor: colocar água e reforçar os corixos, ou colocar cochos cheios de água. Ela ressalta a importância da intervenção de manejo de fauna indireta, que é a avaliação dos locais em que mais se concentram os animais e colocação nesses locais de comida e de água.

 

No trabalho de manejo direto a equipe partia para a busca ativa dos animais, verificação se os encontrados estavam queimados ou debilitados, e o monitoramento deles. A equipe tomava a decisão técnica de captura ou não de determinado animal, sempre priorizando a menor intervenção possível. “Capturar um animal que já está debilitado aumenta bastante o estresse desse animal. Normalmente a captura é uma última opção”, esclarece a auditora.

 

Infraestrutura – Uma das inovações percebidas no Pantanal foi a montagem de um Sistema de Comando de Incidentes (SCI), especificamente, para o resgate da fauna, além do SCI para o controle das queimadas.  “Além disso, está montado no início da Transpantaneira, o que eles chamam de PAEAs, que é o Posto de Atendimento Emergencial a Animais Silvestres. O do início da Transpantaneira é o central. Mas existem outros quatro dentro do Mato Grosso, próximo as outras áreas que também estão sofrendo com os incêndios”, conta Karina.

 

O PAEAs funciona com veterinários voluntários, está equipado e em condições de realizar pequenas cirurgias. Porém, os animais encontrados em situação mais crítica são encaminhados à Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá, principalmente os de grande porte como as onças e antas.

 

A maior parte da infraestrutura organizada para socorrer os animais são custeadas por Organizações Não Governamentais (ONGs). “Tanto o PAEAs como os SCIs estão sendo mantidos pelas ONGs, que estão viabilizando desde a alimentação para os voluntários até combustível para os carros, caminhões pipas, alimentação dos animais. Elas estão ajudando bastante nesse processo”, destaca a auditora.

 

Karina diz que não tem ainda a lista de todos os animais dos quais a equipe do Brasília Ambiental participou de alguma forma do resgate. Mas ela cita os que lhe vem à memória: “duas onças, quatro antas, dois tamanduás bandeira, macacos prego, veados, queixadas, algumas lontras, um tuiuiú– considerada ave-símbolo do Pantanal -, mãos-pelada, entre outros”. Ela também nos dá a boa notícia que uma das onças resgatadas foi tratada e deve voltar à natureza na próxima semana.

 

Além de Karina, que é bióloga, fizeram parte da equipe os também auditores fiscais Thassia Ribeiro Santiago (advogada), e Gilmar Antônio Silveira Filho (biólogo e médico veterinário), o analista Eduardo Discaciate Gomes, (geólogo), e a veterinária, especialista em animais silvestres, Paula Cesário.

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